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Dívida pública do Brasil: a bomba fiscal do 4º mandato

Dívida em 82,9% do PIB e juros de R$ 1,18 trilhão em 12 meses: o mecanismo de uma crise está armado, mas ela ainda não é destino

Análise Por Redação A Culpa Não É Minha · · Economia · 8 min de leitura

A dívida pública do Brasil chegou a 82,9% do PIB em agosto, segundo o Banco Central, o maior nível desde março de 2021. Com Lula reeleito no domingo (25), o mercado abriu esta segunda com uma pergunta: o quarto mandato começa com uma bomba fiscal no colo?

A resposta curta: o mecanismo de uma crise está armado, mas ela não é inevitável. Depende do que o governo fizer com os gastos daqui para a frente.

Dívida pública do Brasil em 2026: o retrato em números

A dívida bruta do governo geral, que soma governo federal, estados e municípios, chegou a R$ 11,05 trilhões em agosto. Em dezembro de 2022, último mês antes do atual mandato, ela estava em 71,7% do PIB. Foram mais de 11 pontos em menos de quatro anos, 4,2 deles só em 2026, pela série do BC.

Os números de 12 meses até agosto, divulgados pelo BC em 30 de setembro:

  • Déficit primário de R$ 82,1 bilhões (0,62% do PIB). Ou seja, o setor público gastou mais do que arrecadou, sem contar os juros.
  • Juros nominais de R$ 1,18 trilhão (8,86% do PIB).
  • Déficit nominal, a soma das duas contas, de R$ 1,26 trilhão (9,48% do PIB).

Traduzindo: a conta de juros é mais de 14 vezes maior que o rombo primário.

O vilão silencioso: juros sobre juros

O Brasil é o país do G20 que mais gasta com juros em relação ao tamanho da economia: 8,8% do PIB em 2024, segundo levantamento do Poder360 com dados do FSB (Conselho de Estabilidade Financeira).

Por que tão alto? A Selic está em 13,75% ao ano desde setembro, segundo o Copom, e a inflação foi de 4,58% em 12 meses até setembro, pelo IBGE. Na nossa conta simples, com a inflação passada, é um juro real perto de 9% ao ano.

E a dívida sente a Selic rápido. Em agosto, 52,74% da dívida pública federal era corrigida por taxa flutuante, segundo o Relatório Mensal da Dívida do Tesouro. O custo médio da dívida federal em 12 meses chegou a 12,59% ao ano.

A meta fiscal só fecha com desconto

A meta de 2026 é um superávit de 0,25% do PIB, com tolerância de 0,25 ponto para mais ou para menos. Na prática, resultado zero já cumpre.

No relatório bimestral de setembro, o governo projetou déficit de R$ 80,9 bilhões para o ano. Descontados R$ 67,3 bilhões em despesas que ficam fora da meta, como precatórios e alguns gastos de defesa, saúde e educação, sobrou déficit de R$ 13,6 bilhões. O governo contingenciou o mesmo valor para encostar no piso.

Para 2027, primeiro ano do novo mandato, a meta sobe para 0,5% do PIB. Para o resultado efetivo do ano, o orçamento enviado ao Congresso prevê superávit de R$ 18,6 bilhões. A IFI, a Instituição Fiscal Independente do Senado, projeta déficit de R$ 86,1 bilhões, uma distância de cerca de R$ 105 bilhões, no relatório de setembro. Para cumprir a meta, a IFI calcula que será preciso contingenciar R$ 35,7 bilhões.

Há ainda as medidas de 2026: um levantamento da Jovem Pan somou até R$ 178,1 bilhões em anúncios do governo. A emissora ressalva que parte é empréstimo a devolver e parte é subsídio ou imposto não cobrado.

Para onde vai a dívida pública no quarto mandato

Todas as projeções apontam para cima:

  • Prisma Fiscal, pesquisa do Ministério da Fazenda com economistas, feita antes da eleição: 83,4% do PIB em 2026 e 87% em 2027, no relatório de outubro.
  • IFI, cenário base: 86,4% em 2027, 95,7% em 2030, último ano do mandato, e 102% em 2032, no relatório de junho.
  • IFI, extremos para 2030: 85,3% no cenário otimista e 106,3% no pessimista.

Para estabilizar a dívida no nível de dezembro de 2025 (78,6% do PIB), a IFI calculou que o setor público precisaria de um superávit primário de 2,1% do PIB por ano. Nos 12 meses até agosto, houve déficit de 0,62%. Na nossa conta, com o PIB projetado pela IFI para 2026, a distância fica perto de R$ 370 bilhões por ano.

Como uma crise fiscal acontece, passo a passo

Crise fiscal é uma espiral, não um calote da noite para o dia:

  1. A dívida cresce mais rápido que a economia.
  2. O investidor cobra um prêmio maior para emprestar ao governo, e os juros longos sobem. A IFI concluiu, em setembro, que a situação fiscal é o fator central desse prêmio de risco.
  3. O dólar sobe, os importados encarecem e a inflação acelera.
  4. O BC mantém a Selic alta por mais tempo e, como mais da metade da dívida segue a taxa flutuante, a conta de juros cresce.
  5. A dívida sobe mais, e o ciclo recomeça.

Nesta segunda, o mercado deu uma amostra dos passos 2 e 3. O dólar fechou a R$ 5,406, alta de 8,36%, e a taxa do DI para janeiro de 2031 subiu 2,54 pontos, a 15,185%, segundo a CNN Brasil. Analistas ouvidos pela CNN citaram cautela fiscal. O Tesouro cancelou leilões de prefixados e de títulos atrelados à inflação e recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em prefixados, informou a InfoMoney. Detalhamos o dia em como o mercado reagiu à vitória de Lula.

Um dia ruim não é crise. E há amortecedores: só 3,75% da dívida federal é externa, e o Tesouro tem caixa para 7,18 meses de vencimentos da dívida interna, segundo o relatório do Tesouro. Na nossa leitura, o risco realista não é um calote, e sim juros altos, dólar caro e crescimento baixo por anos.

Brasil x emergentes: fora da curva

Para comparar países, vale o critério do FMI, que conta os títulos do Tesouro na carteira do Banco Central e, por isso, dá um número maior que o do BC. No Monitor Fiscal de abril, o FMI projeta a dívida brasileira em 96,5% do PIB em 2026 e 100% em 2027. Para 2026, a tabela do Fundo mostra:

  • Média da América Latina: 73,2%
  • México: 62,7%
  • Colômbia: 60,9%
  • Chile: 42,5%
  • Indonésia: 41,5%
  • África do Sul: 78,9%
  • Índia: 83,4%

A média de todos os emergentes é de 78,9%, e inclui a China, com 106,9%. Entre os pares da lista, o Brasil está sozinho no topo.

O que dizem a direita, os economistas e o governo

Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia de Bolsonaro, previu em agosto, no X, que um quarto mandato de Lula faria o país chegar a 2028 numa crise fiscal grave, segundo a Gazeta do Povo. E alertou para mais intervenção na economia: "E é justamente quando a realidade cobra a conta que aparecem as soluções heterodoxas".

Na Jovem Pan, o colunista Alan Ghani atribuiu os juros altos ao descontrole fiscal e a programas como o Desenrola, que, para ele, incentivam a inadimplência.

Há quem veja saída. Na Gazeta do Povo desta segunda, o economista José Márcio Camargo, da Genial, estimou que um ajuste de 1% a 1,5% do PIB no início do governo bastaria para pôr a dívida em queda a partir de 2030.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ao Broadcast que pretende mudar a lei, ou até a Constituição, ainda este ano para buscar formalmente o centro da meta. Ele citou a revisão de emendas parlamentares, supersalários e aposentadorias especiais para abrir espaço fiscal, segundo a InfoMoney.

O que isso muda pra você

  • Crédito caro por mais tempo. Financiamento, cartão e cheque especial acompanham os juros.
  • Dólar alto. Viagem, eletrônicos e produtos importados ficam mais caros.
  • Inflação. Se o câmbio pressionar os preços, seu salário compra menos.
  • Impostos. Governo que não corta gasto procura receita. Veja o que esperar dos impostos em 2027.
  • Emprego. Juro alto freia investimento e contratação.

A nossa leitura

A bomba fiscal não é profecia, é aritmética. O quarto mandato de Lula começa com a dívida no maior nível desde 2021, juros que comem quase 9% do PIB e um orçamento de 2027 cujo resultado, para a IFI, está otimista em mais de R$ 100 bilhões. Na nossa visão, aumentar imposto não resolve. O caminho conhecido é cortar gasto e dar previsibilidade, e ainda dá tempo.

A direita perdeu a eleição, mas não perdeu a razão nem a voz. O Congresso que toma posse em 2027 pode cobrar disciplina, cada relatório bimestral pode ser fiscalizado, e 2028 e 2030 estão logo ali. A gente vai acompanhar número por número.

Perguntas frequentes

Qual é o tamanho da dívida pública do Brasil hoje?

Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral era de R$ 11,05 trilhões, ou 82,9% do PIB, segundo o Banco Central. É o maior nível desde março de 2021.

Quanto o Brasil gasta com juros da dívida?

Nos 12 meses até agosto de 2026, o setor público gastou R$ 1,18 trilhão com juros, o equivalente a 8,86% do PIB, segundo o Banco Central.

O Brasil pode quebrar?

Os dados do Tesouro não apontam calote iminente: em agosto de 2026, só 3,75% da dívida federal era externa e havia caixa para 7,18 meses de vencimentos da dívida interna. Na nossa leitura, o risco real é a dívida seguir subindo e manter juros e dólar altos por anos.

O que é preciso para a dívida pública parar de crescer?

Em junho de 2026, a Instituição Fiscal Independente, do Senado, calculou que seria preciso um superávit primário de 2,1% do PIB por ano para estabilizar a dívida. Nos 12 meses até agosto de 2026, o setor público teve déficit de 0,62% do PIB.

Fontes

  1. Banco Central: Estatísticas fiscais
  2. Banco Central (SGS): série 13761, dívida bruta do governo geral em R$ milhões
  3. Banco Central (SGS): série 13762, dívida bruta do governo geral em % do PIB
  4. Poder360: Dívida bruta atinge 82,9% do PIB em agosto, diz Banco Central (30/09/2026)
  5. Poder360: Brasil é o país do G20 que mais gasta com juros em relação ao PIB (04/07/2026)
  6. Banco Central: histórico das taxas de juros do Copom
  7. IBGE (Sidra): IPCA, tabela 1737, setembro de 2026
  8. Tesouro Nacional: Relatório Mensal da Dívida, agosto de 2026 (cópia publicada pelo Poder360)
  9. Diário do Grande ABC: Governo federal anuncia contenção total de R$ 16,1 bi em despesas em 2026 (24/09/2026)
  10. Jovem Pan: Com precatórios, previsão de déficit primário do governo soma R$ 52 bilhões (24/07/2026)
  11. IFI/Senado: Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 116, setembro de 2026
  12. IFI/Senado: Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 113, junho de 2026 (cenários para a dívida)
  13. Ministério da Fazenda: Prisma Fiscal, relatório mensal de outubro de 2026
  14. Forbes Brasil: reportagem sobre o Prisma Fiscal de outubro de 2026 (15/10/2026)
  15. Jovem Pan: Bondades anunciadas por Lula em 2026 somam até R$ 178,1 bilhões ao ano (15/10/2026)
  16. CNN Brasil: Dólar sobe 8% e Bolsa tem maior queda desde a pandemia após vitória de Lula (26/10/2026)
  17. InfoMoney: Ibovespa e dólar ao vivo, 26/10/2026
  18. FMI: Fiscal Monitor, abril de 2026
  19. FMI: Fiscal Monitor, abril de 2026, apêndice estatístico (tabela A15 e notas metodológicas)
  20. Gazeta do Povo: O que mais quatro anos de Lula causariam ao país? (13/08/2026)
  21. Gazeta do Povo: Quatro bombas que Lula deixou e que ameaçam o futuro da economia (26/10/2026)
  22. Jovem Pan: coluna de Alan Ghani (21/10/2026)

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