Mercado reage à vitória de Lula: Bolsa -13,9% e dólar +8,2%
Circuit breaker, juros acima de 15% e risco-país em alta: o que o investidor está cobrando e como isso chega ao seu bolso
O mercado reage à vitória de Lula com o pior dia da Bolsa desde a pandemia. Na segunda-feira (26), primeiro pregão depois do 2º turno, o Ibovespa caiu 13,88%, o dólar subiu 8,21% e fechou a R$ 5,403, e os juros futuros de prazo longo passaram de 15% ao ano, segundo o InfoMoney. O recado é direto: o investidor passou a cobrar mais caro para financiar o Brasil pelos próximos quatro anos.
Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o resultado oficial do TSE, com 100% das seções apuradas. A resposta dos preços veio antes do café esfriar.
O dia em que a B3 puxou o freio de mão
A queda foi tão rápida que a B3 acionou o circuit breaker logo na abertura, pela primeira vez desde março de 2020, segundo a Gazeta do Povo. É a pausa automática de 30 minutos que entra quando o índice cai 10% em relação ao fechamento anterior. Para a CNN Brasil, foi a maior perda percentual da Bolsa desde março de 2020.
Na mínima do dia, o Ibovespa chegou a 169.516 pontos, queda de mais de 17%. Recuperou parte do terreno e fechou aos 176.608 pontos. Até sexta, o índice subia 10,06% em outubro; depois da segunda, passou a cair 5,22% no mês, segundo o InfoMoney. Em um único pregão, todo o ganho do mês foi embora.
O estrago não foi igual para todos. Segundo o InfoMoney:
- Banco do Brasil (BBAS3) caiu 29,33%;
- o índice de Small Caps, das empresas menores e mais dependentes do mercado interno, caiu 26,92%;
- as exportadoras subiram: Suzano ganhou 10,08%, Embraer 8,89% e Vale 4,01%. Com o dólar mais caro, quem vende lá fora recebe mais em reais.
No câmbio, a moeda americana chegou a R$ 5,60 pela manhã, segundo a CNN Brasil. Pelas contas do SBT News, que registrou alta de 8,34% no fechamento, foi a maior valorização diária do dólar desde janeiro de 1999, quando o Brasil abandonou o câmbio fixo.
Sexta x segunda: como o mercado reage à vitória de Lula, em números
Fechamento de sexta (23) contra o de segunda (26):
- Ibovespa: de 205.082 para 176.608 pontos, queda de 13,88% (InfoMoney).
- Dólar comercial: de R$ 4,99 (Gazeta do Povo) para R$ 5,403, alta de 8,21% (InfoMoney).
- Dólar PTAX, a taxa oficial do Banco Central, calculada com cotações da manhã: de R$ 5,0377 para R$ 5,5007, no boletim das 13h09 (Banco Central).
- Juros futuros para janeiro de 2028: de 12,825% para 14,905% ao ano.
- Juros futuros para janeiro de 2029: de 12,595% para 15,25% ao ano (ambos segundo o InfoMoney).
- CDS de 5 anos, o "risco-país": de 120,2 para 151,7 pontos, alta de 26% e maior nível desde junho de 2025 (Estadão Conteúdo, via CNN Brasil).
Os números variam um pouco conforme a fonte e o horário de corte. A CNN Brasil, por exemplo, registrou o dólar a R$ 5,406 (+8,36%), e o InfoMoney publicou o CDS a 151,6 pontos. O tamanho do tombo é o mesmo.
Juros acima de 15%: o que o mercado está precificando
Os contratos de juros futuros (os DIs) mostram quanto o mercado espera pagar de juros nos próximos anos. Hoje, a Selic está em 13,75%, segundo o Banco Central, desde a reunião do Copom de 16 de setembro.
No Boletim Focus com dados até sexta (23), a projeção era de Selic a 11,75% no fim de 2027. Ou seja, o mercado esperava cortes. Na segunda, a taxa até janeiro de 2028 foi a quase 15%, acima da Selic atual. Uma parte disso é aposta em juros altos por mais tempo. A outra é prêmio de risco: um adicional que o investidor exige por emprestar a um país cujas contas preocupam.
E as contas preocupam. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, o maior patamar desde março de 2021, segundo dados do Banco Central noticiados pelo Poder360. O que mais empurrou a alta foram os juros. É a engrenagem da dívida pública do Brasil: juro alto encarece a dívida, que pressiona o juro de novo.
O CDS mede o mesmo medo por outro ângulo. Ele funciona como um seguro contra calote. Quanto mais caro o seguro, maior a desconfiança.
Por que a reação foi tão forte
Depois do 1º turno, muito investidor apostou na vitória de Flávio Bolsonaro. O CDS caiu abaixo de 108 pontos, o menor nível em seis anos, segundo o Estadão Conteúdo. Com o resultado, essas posições foram desmontadas de uma vez.
Thomas Haugaard, da Janus Henderson, avaliou que a dívida externa brasileira já tinha precificado, em boa parte, uma vitória de Bolsonaro, mas não o risco de Lula vencer, segundo o InfoMoney. Fábio Murad, da Wiser Asset, apontou a dúvida central: como encaixar as promessas de campanha no controle da dívida. Na Gazeta do Povo, William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, foi curto: "Com isso, aquele trade eleitoral perde força."
Os grandes bancos reagiram rápido:
- JP Morgan rebaixou a recomendação para o real e os títulos públicos brasileiros, de "overweight" para "marketweight" (InfoMoney);
- Morgan Stanley vê espaço para o CDS subir mais 40 pontos e para o dólar chegar a R$ 6, se a pressão fiscal aumentar (CNN Brasil);
- Goldman Sachs vê risco fiscal maior e aponta o Orçamento de 2027, a escolha do ministro da Fazenda e a relação com o Congresso como pontos centrais (InfoMoney).
Governo e Tesouro entram em campo
O Tesouro recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em títulos prefixados para conter a disparada das taxas, segundo a Reuters. Também cancelou os leilões de NTN-B previstos para terça e os de prefixados de quinta, marcou uma recompra de títulos atrelados à inflação para a tarde, e o Tesouro Direto chegou a parar duas vezes, segundo o InvestNews.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o governo vai buscar o centro da meta fiscal ainda este ano: "Nós vamos mudar a lei ou, se necessário, a Constituição para buscar formalmente o centro da meta", conforme o Jornal do Comércio. Ele citou revisão de emendas parlamentares, supersalários e aposentadorias especiais.
O que isso muda pra você
- Dólar mais caro: viagem, compra internacional e eletrônicos importados ficam mais caros. Para Marcos Piellusch, da FIA, a alta do dólar pode pressionar a inflação e reduzir o espaço do Banco Central para cortar juros, segundo o Metrópoles. Antes da eleição, o Focus já previa inflação de 5,19% em 2026.
- Crédito: os juros futuros servem de base para empréstimos longos, como financiamento de imóvel. Se a alta se mantiver, o crédito fica mais caro e o corte da Selic, mais distante.
- Tesouro Direto: o Tesouro Prefixado passou de 15% ao ano, segundo o InvestNews. Quem já tinha prefixado ou IPCA+ viu o preço do título cair. Isso só vira perda para quem vende antes do vencimento.
- Bolsa: um pregão não decide o mandato. Para Carlos Eduardo Oliveira Jr., do Sindecon-SP, a frustração inicial pode ser passageira se o governo mostrar compromisso fiscal, segundo o Metrópoles.
A nossa leitura
O mercado não vota, mas manda a conta. E a conta de segunda-feira foi clara: o investidor não acredita, hoje, que o quarto mandato de Lula vai segurar o gasto. Recomprar títulos acalma o pregão; não resolve a dívida. O que resolve é corte de gasto com número, prazo e votação.
Durigan prometeu mudar a lei para mirar o centro da meta. Ótimo. Vamos cobrar, item por item. E o Congresso eleito em 2026 tem a chave do Orçamento de 2027 para exigir isso. O leitor de direita perdeu a eleição, mas não perdeu a razão nem a voz: fiscalizar, votar em 2028 e 2030 e defender as instituições é o caminho.
Perguntas frequentes
Por que o dólar subiu depois da vitória de Lula?
Porque parte dos investidores tinha apostado na vitória de Flávio Bolsonaro e precisou desfazer essas posições. Também passou a cobrar mais para manter dinheiro no Brasil diante da dúvida sobre as contas públicas. Em 26/10/2026, o dólar comercial fechou em R$ 5,403, alta de 8,21%, segundo o InfoMoney.
Quanto caiu a Bolsa depois da eleição de 2026?
O Ibovespa fechou a segunda-feira, 26/10/2026, aos 176.608 pontos, queda de 13,88% em relação aos 205.082 pontos de sexta. Na mínima do dia, chegou a 169.516 pontos, uma queda de mais de 17%.
O que são juros futuros e por que subiram tanto?
São contratos negociados na B3 que mostram quanto o mercado espera de juros nos próximos anos. Os de prazo mais longo foram de cerca de 12,6% para mais de 15% ao ano, porque o investidor passou a exigir mais para financiar um país com dívida em alta.
O que acontece com quem tem Tesouro Direto depois da eleição?
Títulos prefixados e atrelados à inflação perdem valor quando as taxas sobem, e isso só vira prejuízo para quem vende antes do vencimento. Quem leva o título até o fim recebe a taxa contratada na compra.
Fontes
- InfoMoney: Ibovespa desaba 13% após eleição, em dia de circuit breaker; dólar dispara 8% (26/10/2026)
- InfoMoney: Dólar hoje dispara 8,2%, aos R$ 5,40, com reação à reeleição de Lula (26/10/2026)
- CNN Brasil: Dólar sobe 8% e Bolsa tem maior queda desde a pandemia após vitória de Lula (26/10/2026)
- TSE: resultado oficial do 2º turno para presidente, 100% das seções apuradas (25/10/2026)
- Banco Central: cotações PTAX do dólar de 23/10/2026 e 26/10/2026
- Banco Central: Relatório Focus de 23/10/2026
- Banco Central: histórico da taxa Selic (Copom de 16/09/2026, Selic em 13,75%)
- Banco Central: série 13762, dívida bruta do governo geral em % do PIB (agosto de 2026)
- Poder360: Dívida bruta atinge 82,9% do PIB em agosto, diz Banco Central (30/09/2026)
- CNN Brasil (Estadão Conteúdo): Risco-país brasileiro avança 26% e atinge maior nível desde junho de 2025 (26/10/2026)
- SBT News: Dólar tem maior alta diária em 27 anos após vitória de Lula (26/10/2026)
- Gazeta do Povo: Vitória de Lula provoca disparada do dólar e trava a Bolsa; veja as cotações (26/10/2026)
- Metrópoles: Analistas explicam tensão no mercado após reeleição de Lula (26/10/2026)
- CNN Brasil (Reuters): Tesouro recompra R$ 7,1 bi em NTN-Fs em meio à disparada das taxas (26/10/2026)
- InvestNews: Tesouro intervém no mercado com recompras de prefixados e leilão de NTN-Bs (26/10/2026)
- Jornal do Comércio (Agências): Durigan diz que vai buscar o centro da meta fiscal ainda este ano (26/10/2026)
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